Um Olhar Sobre os Acumuladores


A síndrome do paciente acumulador, também conhecida como Síndrome de Diógenes, caracteriza-se por uma quebra e rejeição de padrões sociais observados no descuido pessoal e habitacional severo, no abandono do convívio social, no reduzido insight para o problema, assim como o comportamento de acúmulo de objetos e/ou animais.
Este trabalho tem como objetivo a atenção humanizada ao munícipe com síndrome de acúmulo no território de São Miguel numa tentativa de identificar precocemente este indivíduo e melhorar o tratamento e o monitoramento posterior, realizado pelo Grupo de Apoio ao Munícipe Acumulador (GAMA), integrando vários serviços da rede municipal. No total de 11 acumuladores acompanhados, no período de fevereiro a agosto de 2015, verificou-se que a preponderância de acumuladores de inservíveis (80%), do sexo feminino (70%) e idosos (70% acima dos 60 anos). Assim, constata-se que este levantamento não difere do encontrado na bibliografia sobre o assunto. Baseado nesses dados iniciais é possível aprimorar os programas de acolhimento a estes munícipes e preparar os trabalhadores para reconhecer e atender estes pacientes.
O Grupo de Apoio ao Munícipe Acumulador (GAMA) tem como função a atenção integral aos acumuladores compulsivos. O grupo técnico surgiu a partir da necessidade de um olhar mais atento, multiprofissional e intersetorial ao sofrimento psíquico do munícipe em situação de acúmulo, tendo em vista que muitas vezes a demanda que chega aos serviços, traz o sujeito resumido a um endereço, e o grupo procura resgatar a história e reinserção social.
Entre as instituições que integram o GAMA estão a Supervisão de Vigilância em Saúde, Supervisão Técnica em Saúde, Centro de Referência de Assistência Social, Centro de Atenção Psicossocial, Núcleo de Proteção Jurídico Social e Apoio Psicológico, Defesa Civil e as Unidades Básicas de Saúde, com reuniões mensais multiprofissionais e intersetoriais, e cada caso é discutido em sua singularidade, visando estratégias de fortalecimento de vínculo entre a equipe e o munícipe e proposta de novas ações com resolutividade. É importante dizer que grupo tem como foco o munícipe e não o objeto de acúmulo.

A Doença

De acordo com pesquisas internacionais, 4% da população mundial já é acumuladora compulsiva. Também chamado de Disposofobia (fobia em dispor das coisas), é um transtorno comportamental que consiste no acúmulo de qualquer tipo de entulho: garrafas, animais, papéis, aparelhos eletrônicos, maquiagens, revistas, roupas, produtos de limpeza, no mesmo ambiente que comida da residência, lixo orgânico, dejetos, enfim, todo e qualquer tipo de entulho.
Essas pessoas juntam esses objetos porque acreditam que em algum momento esses objetos deverão ter alguma utilidade, transformando suas casas em verdadeiros depósitos de lixo.
Há também casos de acumuladores que compram compulsivamente mas acabam nem abrindo as sacolas e caixas dos novos objetos adquiridos. O capitalismo coopera para a formação deste quadro clínico, já que sua base é o consumismo, estimulando os portadores da síndrome a se realizarem através da aquisição de coisas. É comum ainda o recolhimento de objetos nos lixos: o doente passa a acumular pequenas coisas jogadas fora por outras pessoas, por acreditarem que aquilo possa vir a ter uma utilidade.
Trata-se de um transtorno emocional com fortíssima repercussão comportamental e cognitiva caracterizado por recolhimento excessivo e incapacidade para descartar coisas, geralmente sem utilidade. O comportamento de acumulação compulsiva geralmente causa, para a pessoa que sofre da doença e para membros da família, prejuízo emocional, social, financeiro, físico e até mesmo legal.
O Transtorno de acumulação não pode ser confundido com pessoas que tem o ato de colecionar objetos como hobbie. O colecionador organiza suas coleções, respeita espaços e se orgulham desses objetos, que faz questão de mostrar. O acumulador compulsivo perde o controle e quando vê já está com a casa toda tomada pelos inservíveis ou animais. Como consequência o acumulador tem limites de mobilidade dentro da sua própria casa. Além disso, esse paciente tem vergonha e um constrangimento muito grande, e acaba se tornando um isolado social.
Outro comportamento dos acumuladores é não se preocupar com a sujeira adquirida devido ao empilhamento de coisas pela casa, favorecendo a entrada de ratos, insetos e outras pragas, comprometendo a saúde dos moradores.
Para identificar os sintomas, é preciso observar o estado emocional desta pessoa. O doente normalmente apresenta fragilidade, insegurança, carência, ansiedade, medo, arrependimento, depressão e frustração. Este comportamento se manifesta geralmente em quem tem o famoso TOC (transtorno obsessivo compulsivo que consiste em repetir uma ação várias vezes) e pode vir associado à Depressão. A maioria dos estudos mostra que 24% dos portadores de TOC possuem a doença do Acumulador.

Caso

Na situação dessa abordagem, os acumuladores não mostram apego pelos inservíveis que se encontravam dentro da casa, como os casos “clássicos”. Os pacientes – o homem com 46 e a mulher com 33 -, trabalham com reciclagem e acabam levando para casa alguns dos materiais na esperança de vendê-los em algum momento futuro. Eles estavam vivendo em local insalubre e totalmente tomado por inservíveis, roupas, lixo e em condições de organização e higiene insatisfatórias – tanto que para adentrar à casa de alvenaria, eles tinham de usar o telhado – porque são dependentes químicos e seu senso de realidade estava enevoado.
Foram encontrados também insetos e roedores. Observa-se ainda a presença de gatos semidomiciliares. O casal teve três filhos: dois já foram destituídos, e entregues para adoção por outras famílias. O caçula, de um ano e oito meses, está com a avó paterna – que faz questão de que os pais tenham o mínimo de contato possível com a criança, preocupada com a sua saúde mental do neto.
O casal não possui documentos e não estão inscritos em nenhum programa social como o bolsa família. No dia da abordagem eles foram conduzidos ao CAPS mais próximo para iniciarem tratamento. Também serão acompanhados pelo NPJ que vai auxiliar na tramitação de novos documentos.

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